sábado, 11 de fevereiro de 2012

Só mais uma vez

Para G e M, com amor.

Avisto-o de longe e cresço de alegria. 
Apoiado na janela, banhava-lhe o rosto uma luz que se fez hoje especialmente para isto. O olhar pelejando em vão contra os arranha-céus, carecendo arrebentar nos arrecifes de logo ali, e acrescentar em sal às águas do gigante. 
Interrompo-lhe as súplicas à natureza com a sutileza de um canastrão. Grito que não vejo a hora de vê-lo passeando por nosso acanhado jardim, de ter a sua porta escancarada novamente, sua gentileza e elegância açucarando a vida no pequeno edifício. Estalo nas mãos os meus melhores beijos, atirando-os em sua direção, alongando os braços o mais que posso, extraindo-lhe um sorriso que parece dizer: "Me deixa morrer em paz, menina!". Se eu pudesse, meu amigo. Porque também eu bem gostaria de terminar com o meu amor "um só defunto", feito dizia o Poetinha. Antes, por puro egoísmo, eu sei, dá-me tempo pra acertar o ponto do rocambole de limão com chocolate, te levar um pedaço e uma novidade boa. Está certo que eu ando sem nenhuma que assim seja, mas, por ti, eu até invento e faço acontecer. 
Ah, perdão pela truculência. Necessidade minha de te valer um instante que signifique o quanto, para mim, aquele flagrante de um teu abraço na Velha (já tão magrinha!) enquanto aguardavam, sob a árvore do vizinho, um táxi para irem ao shopping. Último passeio. Aos que considerem o lugar desprovido de encantos para tão dolorosa e especial ocasião, digo que não faz a menor diferença. Havia encanto o bastante em viverem um dentro outro. Porque é raro o amor. 
Velho afortunado! A sua dor é um tesouro a poucos destinado.



Ceronha Pontes
Recife-Pe, 11 de Fevereiro de 2012.

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